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Entenda a crise que levou a Scuderia Bandeiras a romper com a Stock Car

31 de jul.
10 min de leitura

Atualizado: 7 de ago.

O rompimento da Scuderia Bandeiras com a Stock Car, oficializado em 1º de julho de 2026, encerrou uma relação que já vinha sendo desgastada por divergências técnicas, financeiras, contratuais e institucionais. A decisão envolveu as inscrições Bandeiras e Bandeiras Sports, ligadas a Átila Abreu, e retirou inicialmente da competição os carros conduzidos pelo próprio piloto, Rubens Barrichello, Nelson Piquet Jr. e Rafael Suzuki.
Átila Abreu na final da Stock Car de 2024 em Interlagos (Carlos Rossi/Red Line Motorsport)

Divergências contratuais, disputa pelo Kit V8, questionamentos sobre cobranças e o caso dos freios marcaram o fim da relação; Rafael Suzuki retornou à Full Time

 

São Paulo, 30 de julho de 2026. O rompimento da Scuderia Bandeiras com a Stock Car, oficializado em 1º de julho de 2026, encerrou uma relação que já vinha sendo desgastada por divergências técnicas, financeiras, contratuais e institucionais. A decisão envolveu as inscrições Bandeiras e Bandeiras Sports, ligadas a Átila Abreu, e retirou inicialmente da competição os carros conduzidos pelo próprio piloto, Rubens Barrichello, Nelson Piquet Jr. e Rafael Suzuki.


A ruptura ganhou peso adicional pela trajetória de Átila dentro da categoria. O piloto disputou suas primeiras provas na Stock Car em 2006 e passou a integrar regularmente o campeonato a partir de 2008. Ao longo de quase duas décadas, consolidou sua presença no grid antes de assumir também as funções de empresário e dirigente.


A Scuderia Bandeiras havia estreado na Stock Car em 2025. Anunciado no fim do ano anterior, o projeto surgiu com Átila entre os sócios-fundadores e marcou sua entrada no comando de uma equipe própria. A operação, inicialmente concebida para dois carros, foi ampliada e passou a reunir quatro veículos entre as estruturas Scuderia Bandeiras e Bandeiras Sports.


O rompimento encerrou, portanto, uma operação ainda recente, mas conduzida por um piloto com longa ligação com o campeonato.


O impacto esportivo foi parcialmente reduzido posteriormente. Quinto colocado na classificação, com 377 pontos, Rafael Suzuki acertou o retorno à Full Time Sports e assegurou sua continuidade na temporada com o Chevrolet #8. A nova passagem pela equipe começou na etapa do Velocitta, em Mogi Guaçu.


Rubens Barrichello, Nelson Piquet Jr. e Átila, por outro lado, ficaram sem participação confirmada nas etapas seguintes. Barrichello declarou que conhecia os atritos existentes nos bastidores, mas não esperava que a relação chegasse ao rompimento. Também manifestou interesse em voltar ao grid caso surgisse uma nova oportunidade.


O caso dos freios ampliou a exposição da crise


O caso das pinças de freio foi um dos episódios de maior repercussão esportiva da crise e ampliou publicamente o confronto entre a Scuderia Bandeiras e a organização da Stock Car. Ele não deu origem, entretanto, a todas as demais divergências, já que discussões sobre o Kit V8, cobranças contratuais e outros aspectos da operação da categoria vinham sendo travadas anteriormente.


A controvérsia começou na etapa de Interlagos, em abril. Durante a inspeção técnica, foram identificadas alterações nas pinças de freio dos carros de Barrichello e Piquet Jr. De acordo com a fiscalização, os componentes não correspondiam integralmente às especificações homologadas, o que levou à desclassificação dos dois pilotos.


A Scuderia Bandeiras contestou as punições e recorreu ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Em 30 de junho, o recurso foi rejeitado por unanimidade, por 5 votos a 0, mantendo as sanções aplicadas anteriormente.


Em comunicado oficial, a Confederação Brasileira de Automobilismo afirmou que o desligamento da Scuderia Bandeiras decorreu de uma relação contratual e comercial entre a equipe e a Vicar, sem participação da entidade.


No campo esportivo, a CBA declarou que as desclassificações dos carros de Rubens Barrichello e Nelson Piquet Jr. em Interlagos seguiram as regras técnicas aplicáveis e as especificações estabelecidas pelos fabricantes dos componentes envolvidos.


A Confederação também relacionou sua atuação à segurança dos pilotos diante das alterações identificadas e sustentou que os procedimentos técnicos, disciplinares e desportivos observaram os regulamentos, o devido processo, a imparcialidade, a ampla defesa e as instâncias competentes da Justiça Desportiva.


Átila Abreu apresentou outra interpretação sobre a influência desse episódio na saída. Segundo o piloto, o resultado no STJD não teria determinado o rompimento, que já vinha sendo preparado em razão do acúmulo de conflitos contratuais, financeiros e institucionais.

O julgamento ocorreu imediatamente antes do anúncio da ruptura e colocou a crise no centro do debate público.


Consequências contratuais também chegaram à Justiça


Além das desclassificações esportivas, foram aplicadas medidas relacionadas ao contrato de participação da equipe. Entre elas estavam a retirada de descontos e incentivos financeiros, a suspensão de subsídios materiais e o reposicionamento dos boxes para o restante da temporada.


Átila Abreu classificou o impacto financeiro dessas medidas como uma “multa” de aproximadamente R$ 2,3 milhões. Em resposta encaminhada ao Motorsport.com, a Stock Car contestou essa nomenclatura, informando tratar-se de retirada de benefícios e incentivos, tal como previsto em contrato.


A Bandeiras recorreu à Justiça de São Paulo e obteve uma liminar na 1ª Vara Cível de Cotia (Proc. Nº 4006557-56.2026.8.26.0152). A decisão suspendeu provisoriamente as consequências financeiras e logísticas questionadas pela equipe, preservando as condições anteriormente estabelecidas até nova análise judicial.


Na decisão preliminar, o magistrado apontou indícios de que o procedimento contratual utilizado para apurar infrações consideradas gravíssimas poderia não ter sido seguido integralmente, especialmente quanto ao contraditório e à ampla defesa.


A liminar não representou julgamento definitivo do mérito. A medida apenas suspendeu temporariamente os efeitos das decisões contratuais enquanto as partes apresentavam seus argumentos e documentos.


Na posição encaminhada ao Motorsport.com, a organização da categoria relacionou as medidas ao caso dos freios e destacou o envolvimento de componentes ligados à segurança dos participantes.


Kit V8 colocou em discussão cerca de R$ 200 mil por carro


Outra frente do conflito envolveu o conjunto de peças necessário para acomodar o motor V8 adotado pela Stock Car em 2026. O pacote compreendia alterações em sistemas eletrônicos, chicotes, refrigeração e outros componentes necessários à nova configuração mecânica.


Átila Abreu disse que o custo se aproximava de R$ 200 mil por carro. Como a Scuderia Bandeiras operava quatro veículos, o impacto total para a estrutura teria ficado próximo de R$ 800 mil. Para todo o grid, o dirigente mencionou um montante em torno de R$ 6 milhões.


A controvérsia estava na interpretação do contrato.


Segundo entendimento apresentado pela Stock Car em resposta ao Motorsport.com, o Kit V8 faz parte da evolução do carro e os custos relacionados às atualizações técnicas devem ser assumidos pelas equipes signatárias dos respectivos contratos.


A Bandeiras, por sua vez, apresentou entendimento diferente. Na interpretação da equipe de Átila Abreu, as alterações iam além de uma atualização e representavam uma modificação substancial do projeto adotado no ano anterior. Nessa leitura, os custos deveriam ser suportados pela promotora ou pela Audace Tech.


Segundo reportagens publicadas pelo Motorsport.com e pela Racer Media, essa controvérsia também chegou à Justiça, e uma decisão liminar atribuída à 3ª Vara Cível de Cotia (SP) suspendeu provisoriamente a cobrança e consequências relacionadas ao não pagamento. Átila Abreu também declarou em suas redes sociais que a Scuderia Bandeiras havia obtido duas liminares favoráveis.


A Red Line Motorsport, entretanto, não localizou, em consulta ao sistema de pesquisa processual do TJSP (pelos nomes das partes), o processo distribuído à 3ª Vara Cível e Cotia, cuja existência é mencionada por veículos especializados e por Átila Abreu.

 

Pneus também entraram nos questionamentos


As divergências não ficaram restritas aos componentes dos carros. Antes de oficializar o rompimento, a Scuderia Bandeiras encaminhou questionamentos à Vicar e à Audace sobre práticas comerciais, tributárias e contratuais relacionadas à operação da categoria.


Átila Abreu declarou que não recebeu esclarecimentos que considerasse suficientes e argumentou que algumas dessas questões poderiam afetar compromissos de conformidade assumidos pela equipe com seus patrocinadores.


Um dos temas envolveu os pneus Hankook utilizados no campeonato. A Bandeiras questionou a compatibilidade entre o regime aduaneiro empregado na entrada dos produtos no Brasil e a forma como eles teriam sido posteriormente cobrados das equipes.


Em entrevista concedida ao SprintGP, Átila afirmou possuir documentos fiscais referentes a valores próximos de R$ 16 mil por jogo. Segundo o que argumentou a equipe, uma eventual operação sob admissão temporária poderia não ser compatível com a posterior comercialização dos pneus antes da nacionalização e do recolhimento dos tributos aplicáveis.


Essas declarações representam a versão da Bandeiras. Não foi encontrada nenhuma manifestação ou decisão da Receita Federal, nem de qualquer outro órgão competente, identificando alguma irregularidade tributária nas operações. Também não localizamos, entre os materiais e fontes que embasaram esta reportagem qualquer manifestação específica da Vicar sobre o tema.


Sem acesso à documentação aduaneira, às notas fiscais e aos contratos relacionados à operação, não é possível confirmar eventual irregularidade nem estabelecer uma conclusão definitiva sobre o questionamento apresentado pela equipe.

 

Parte das equipes manifestou apoio à categoria


Após o rompimento, algumas equipes da Stock Car reproduziram em suas redes sociais uma nota conjunta em apoio ao cumprimento dos regulamentos técnico e desportivo do campeonato. Entre as estruturas que publicaram o texto estavam A. Mattheis Vogel, Crown Racing, Full Time, Cavaleiro Sports e A. Mattheis Motorsport.


A manifestação representou um posicionamento público de parte do grid no campo técnico e desportivo. O comunicado, porém, não abordou diretamente as controvérsias contratuais, financeiras, tributárias e operacionais levantadas pela Scuderia Bandeiras.

 

Lincoln Oliveira apresenta versão da organização


Em entrevista ao Motorsport.com após o rompimento, Lincoln Oliveira, CEO do Grupo Veloci, apresentou uma versão diferente para o desgaste entre as partes. O dirigente contestou acusações feitas por Átila Abreu, afirmou que a organização foi surpreendida pela saída da Scuderia Bandeiras e declarou acreditar que a decisão da equipe já vinha sendo preparada anteriormente.


As afirmações representam a posição apresentada por Lincoln sobre o conflito e não encerram, isoladamente, as controvérsias contratuais, financeiras e institucionais discutidas entre as partes.

 

Átila ampliou as críticas após o rompimento


Depois de deixar a Stock Car, Átila passou a utilizar entrevistas e redes sociais para apresentar publicamente outros questionamentos sobre práticas comerciais e operacionais da categoria.


As manifestações foram feitas de forma unilateral e refletem a interpretação do piloto e proprietário da Scuderia Bandeiras sobre os contratos e cobranças com os quais teve contato. Sem acesso à documentação integral e sem resposta específica da organização em todos os casos, os relatos não permitem concluir que tenha existido alguma irregularidade.


Entre os exemplos citados, Átila declarou que fotógrafos, assessores de imprensa e outros profissionais responsáveis pela cobertura dos eventos precisariam desembolsar valores próximos de R$ 700 ou R$ 800 para trabalhar nas etapas, além de pagar estacionamento.


Na avaliação do dirigente, a cobrança seria contraditória por atingir profissionais responsáveis pela produção de fotografias, notícias, releases e outros conteúdos que contribuem para a divulgação da competição. Ele também argumentou que os custos poderiam dificultar a cobertura presencial, especialmente para profissionais independentes e veículos de menor estrutura.


A declaração não esclareceu se o valor era cobrado pelo credenciamento, pela utilização da sala de imprensa, por serviços adicionais ou por outro modelo de acesso. Sem o regulamento correspondente e sem uma manifestação específica da organização, não é possível determinar a natureza exata da cobrança ou seu alcance entre os profissionais credenciados.


Átila também questionou cláusulas contratuais relacionadas a manifestações públicas de pilotos e equipes. A existência de consequências financeiras para esse tipo de conduta já havia aparecido publicamente em 2025, quando Felipe Massa e Bruno Baptista sofreram consequências financeiras após declarações críticas sobre a Stock Car. Segundo reportagens do Motorsport.com e do Grande Prêmio, o impacto estimado foi de aproximadamente R$ 100 mil, por meio da suspensão de benefícios contratuais. O Grande Prêmio informou ainda que a medida teria sido baseada na cláusula 10 dos contratos de participação, que prevê restrições a declarações consideradas desprestigiosas ao campeonato e aos envolvidos na competição.


Na mesma época, Gabriel Casagrande criticou publicamente as punições aplicadas aos colegas e posteriormente fez novas manifestações sobre os problemas enfrentados pela categoria, sem que tenha sido localizada informação confiável de que ele próprio tenha recebido penalidade semelhante por essas declarações.


A confirmação do alcance dessa previsão dependeria do acesso aos contratos e regulamentos aplicáveis. Não foi localizada, no material utilizado para esta reportagem, resposta específica da Vicar sobre as declarações envolvendo profissionais de imprensa ou críticas publicadas nas redes sociais.


Distribuição de combustível também foi contestada


Outro questionamento apresentado por Átila envolveu a cobrança relacionada à distribuição do combustível utilizado pelos carros.


Em entrevista ao Canal Máquina, o piloto afirmou que, desde sua entrada regular na Stock Car, em 2008, o combustível era tradicionalmente disponibilizado às equipes dentro da operação do campeonato, por meio de acordos entre a promotora e empresas fornecedoras.

Segundo Átila, a categoria utilizou diferentes combustíveis ao longo dos anos, sem que as equipes fizessem o pagamento direto pelo produto. Em 2026, porém, teria surgido uma cobrança atribuída aos custos de transporte e distribuição.


Na versão apresentada pelo dirigente, o combustível continuava sendo cedido pela Vibra, fornecedora da categoria, mas a logística de entrega nos locais das etapas teria passado a ser realizada de outra maneira, com o custo repassado às equipes.


Átila declarou que cada carro utilizava aproximadamente 350 litros por fim de semana e que os valores cobrados variavam entre cerca de R$ 3.690 e R$ 3.900. Nos cálculos apresentados por ele, o custo se aproximaria de R$ 11,20 por litro.


O piloto comparou o valor ao preço da gasolina Podium comercializada nos postos e questionou como uma cobrança apresentada como custo de distribuição de combustível cedido por patrocínio poderia superar o preço final pago pelo consumidor.


Os próprios números mencionados na entrevista resultariam em valores aproximados entre R$ 10,54 e R$ 11,14 por litro, dependendo da quantia efetivamente cobrada. A referência aos R$ 11,20 deve, portanto, ser entendida como a estimativa apresentada por Átila, e não como cálculo confirmado de forma independente.


A alegação de Átila Abreu não permite concluir, isoladamente, que tenha existido cobrança indevida ou descumprimento contratual. Não houve acesso público, entre os materiais usados nesta reportagem, à íntegra dos contratos, notas fiscais ou planilhas de composição dos custos logísticos.


Também não foi localizada manifestação específica da organização sobre a cobrança do combustível. Sem esses documentos e esclarecimentos, não é possível determinar quais despesas estavam incluídas, qual era a responsabilidade contratual de cada parte ou se o valor era incompatível com a operação realizada.


O questionamento apresentado por Átila ficou concentrado na origem, proporcionalidade e transparência da cobrança.


Conflito permanece distante de uma solução


As informações públicas disponíveis mostram interpretações diferentes sobre praticamente todas as frentes da crise.


A Scuderia Bandeiras alega que a relação se tornou inviável após o acúmulo de divergências financeiras, jurídicas e institucionais. Nos casos em que houve manifestações documentadas da organização, a Stock Car vinculou suas decisões aos contratos, aos regulamentos e às avaliações técnicas da CBA.


O posicionamento publicado por algumas equipes demonstrou apoio ao cumprimento das regras e à condução técnico-desportiva da categoria, mas não solucionou as controvérsias contratuais, financeiras e tributárias levantadas pela Bandeiras.


O material disponível não permite estabelecer uma conclusão definitiva sobre todas as questões que envolveram o rompimento. Parte dos acontecimentos está documentada em decisões esportivas, comunicados e liminares judiciais, enquanto outros decorrem de alegações apresentadas pelos envolvidos.


O caso dos freios foi o episódio que levou a crise ao centro da discussão esportiva e pública, mas não pode ser tratado como a origem de todas as divergências. As disputas relacionadas ao Kit V8, às consequências contratuais, aos pneus, ao combustível e a outras cobranças já integravam o desgaste acumulado entre as partes.


Desde o rompimento, Átila Abreu também tem publicado vídeos e concedido entrevistas nos quais retoma a discussão sobre as pinças de freio e apresenta novos questionamentos e alegações envolvendo a Vicar e a Audace Tech. Essas manifestações mantêm o conflito no debate público, mas, nos pontos que seguem sem documentação acessível ou respostas específicas, não é possível chegar a conclusões definitivas sobre supostas irregularidades.

 

O desfecho ainda parece distante. Algumas controvérsias já chegaram à Justiça, enquanto outras poderão resultar em novos procedimentos judiciais ou extrajudiciais. A definição deverá depender do avanço dos processos existentes, da apresentação dos contratos e documentos relacionados às cobranças e de eventuais novos esclarecimentos públicos das partes envolvidas.


Carlos Rossi / Red Line Motorsport

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