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A História das 1000 Milhas

 

Em 1956 foi disputada a primeira edição das “Mil Milhas Brasileiras”, cuja largada aconteceu à meia-noite de 24 de novembro. A prova teve 201 voltas no antigo circuito de Interlagos, totalizando os 1.609 quilômetros que deram origem ao nome da corrida.

Para compreender os fatores que permitiram o surgimento dessa prova de endurance, é importante conhecer alguns dados históricos sobre a formação da indústria automotiva no Brasil.

De forma resumida, em 1919 a capital paulista recebeu a Ford, tornando-se a primeira fábrica de automóveis instalada no país. Poucos anos depois, em 1925, foi a vez da General Motors. Até meados do século XX, entretanto, a atividade automotiva no Brasil se limitava basicamente à montagem de veículos.

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Caminhões GM na linda de montagem – Década de 1930

Alguns anos antes do surgimento das “Mil Milhas”, o governo Getúlio Vargas estava determinado a dar início à indústria automotiva brasileira, o que exigiu a inauguração de duas importantes empresas, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Fábrica Nacional de Motores (FNM).

Entre os anos de 1947 e 1953 o governo impôs algumas medidas que visavam dar concretude a esse projeto para o setor automotivo, como foi o caso da proibição da importação de carros prontos; e posteriormente essa vedação foi estendida às autopeças que já estivessem sendo produzidas em território nacional. Tudo isto pelo fato de que à época o câmbio favorecia muito a indústria europeia, enchendo nossas ruas de carros europeus, principalmente de origem inglesa.

Chegamos assim ao governo de Juscelino Kubitscheck que, em 1956, instituiu o chamado Grupo Executivo da Indústria Automobilística – GEIA. Nesse mesmo ano a fabricante Romi produziu o primeiro carro completamente nacional, o famoso Romi-Isetta. Ainda em 1956 a FNM e a Vemag lançaram carros nacionais que nada mais eram do que cópias – autorizadas – de modelos estrangeiros.

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Galpão com produção do Romi-Isetta

Esse breve panorama histórico serve para demonstrar que, diante do forte incentivo à indústria automotiva, a criação de uma competição de longa duração tinha papel estratégico: provar a qualidade dos carros fabricados no país e, ao mesmo tempo, impulsionar o mercado nacional.

Isso, naturalmente, não significa que as corridas automobilísticas tenham começado a partir daí. Registros indicam que já em 1908, na cidade de São Paulo, foi realizada a primeira prova com automóveis no país, disputada no Circuito de Itapecerica, em vias públicas.

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Em 26 de julho de 1.908 acontecia a primeira corrida de carros no Brasil – Circuito de Itapecerica

Diante de todo esse contexto, o piloto Wilson Fittipaldi, juntamente com Eloy Gogliano, piloto de motocicleta e fundador do Centauro Motor Clube, inspirados na já famosa “Mille Miglia Italiana” criaram as “Mil Milhas Brasileiras”, e deram o pontapé inicial para a corrida endurance que se tornaria a mais tradicional do Brasil.

 

Os idealizadores projetaram essa corrida para ter uma duração de 12 horas, com revezamento de pilotos, fazendo com que os carros participantes tivessem sua qualidade e capacidade levadas ao extremo. Foram convidados pilotos gaúchos e paulistas, já que entre eles havia uma certa “rivalidade”. Com o apoio das empresas fabricantes de autopeças, junto com o forte interesse da TV e mídia escrita, os investimentos para a realização do evento estavam certos.

A primeira edição foi disputada no antigo traçado de Interlagos, que apesar de já existir desde 1940 só ganhou relevância com as Mil Milhas Brasileiras.

E nessa primeira corrida a Volkswagen já teve a participação do icônico “Fusca 18”, pilotado por Christian "Bino" Heins e Eugênio Martins, que apesar de terem assumido a ponta no meio da prova, tiveram que abandonar a disputa na volta 138, com a quebra do cabo do acelerador.

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Fusca 18 na primeira corrida de Mil Milhas no Autódromo de Interlagos

Na edição de estreia, em 1956, a vitória ficou com os gaúchos Catarino Andreatta (RS) e Breno Fornari (RS), a bordo de uma Carretera Ford. A segunda colocação foi de Christian Heins (SP) e Eugênio “Toco” Martins (SP), com um Volkswagen Porsche, enquanto o terceiro lugar ficou com Valdir Rebeschini (RS) e Aristides Bertuol (RS), conduzindo uma Carretera Chevrolet.

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Carretera Ford de Catarino Andreatta e Breno Fornari nas Mil MiIhas

Até a edição de 1959, as Carreteras dominaram as vitórias nas Mil Milhas. Essa sequência foi interrompida em 1960, quando os paulistas Chico Landi e Christian Heins venceram a prova a bordo de um FNM JK 2000.

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Chico Landi no FNM JK 2000

Em 1961, a corrida foi vencida pela dupla Ítalo Bertão e Orlando Menegaz, com um Chevrolet Corvette.

Entre 1962 e 1964, as Mil Milhas não foram realizadas. Em 1965, a prova retornou ao calendário, novamente com vitória de uma Carretera Chevrolet, pilotada por Justino de Maio e Victorio Azzalin Filho.

Apesar de, em alguns anos, o público ter ficado sem a realização das Mil Milhas, a maior concentração dessas ausências ocorreu entre 1974 e 1980.

Ao longo de sua história, apenas duas edições não foram disputadas em Interlagos: em 1997, a corrida aconteceu em Brasília, no Autódromo Internacional Nelson Piquet; e em 1999, no Autódromo Internacional de Curitiba.

A 51ª edição das Mil Milhas, disputada em 2007, retornou a Interlagos com status internacional ao integrar o Le Mans Series. A prova trouxe ao Brasil protótipos de altíssimo desempenho e tecnologia de ponta. A vitória ficou com Nicolas Minassian (FRA) e Marc Gené (ESP), a bordo de um Peugeot 908 HDi, seguidos por outro Peugeot 908 HDi, pilotado por Pedro Lamy (POR) e Stéphane Sarrazin (FRA).

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Largada das Mil Milhas (Le Mans) em 2007 - Foto: Morio - Own work, CC BY-SA 3.0

Desde então, as Mil Milhas continuam sendo disputadas em Interlagos, com exceção dos anos de 2009 e 2010, quando a prova não foi realizada.

 

Carlos Rossi 

Jornalista | Repórter Fotográfico

 

 

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